Relato fornecido pela família, publicado a seu pedido. Texto integral, organizado em parágrafos para leitura.
No coração de Araguari, em Minas Gerais, os aromas de secos e molhados da vida interiorana se misturavam às essências e manipulações do boticário Raimundo José Bazilio. Foi ali que, desde pequeno, Bráulio Roberto Bazilio, nascido em 26 de março de 1933, aprendeu o ofício que marcaria sua existência. Olhando o pai medir com precisão cada fórmula, entre o afeto da mãe, a professora Maria Estela Bazilio, o garoto absorveu não apenas a arte de preparar remédios, mas a vocação de cuidar do próximo.
Antes de Brasília possuir hospitais suficientes, ruas asfaltadas e regiões consolidadas, existiam na Cidade Livre algumas farmácias onde as pessoas encontravam mais do que remédios, entre elas encontravam Bráulio que em maio de 1959, o chamado da esperança ecoou mais alto. A convite da tia Rita e movido pelo sonho de construir o próprio negócio no coração do Brasil, Bráulio colocou o peito à prova e desembarcou no Planalto Central.
A nova capital ainda estava em construção, homens e mulheres chegavam de todas as partes do país, atraídos pela promessa de trabalho e pela possibilidade de começar uma nova vida. O destino era a efervescente Cidade Livre, um lugar feito de poeira, madeira e uma vontade inabalável de fazer o futuro acontecer. Com a união e o esforço da família, ergueram-se as primeiras tábuas da Farmácia Santo Antônio, um tributo carinhoso ao santo de quem todos eram devotos ardorosos.
Ali, no calor do cerrado, a farmácia floresceu. No início, tudo era muito simples, aos poucos, de prateleira em prateleira, o estabelecimento foi crescendo. Mas a Santo Antônio era muito mais do que um comércio: era um porto seguro. Seu Bráulio e sua família estendiam a mão a quem precisasse, aliviando dores de corpo e de alma naqueles tempos em que a medicina na nova capital ainda dava seus primeiros passos.
Havia quem procurasse orientação porque não sabia aonde ir, havia quem precisasse de um medicamento e só pudesse pagar depois, havia quem entrasse para conversar por alguns minutos, porque a saudade da cidade natal sempre apertava no peito. A farmácia tornou-se um ponto de confiança, enquanto Brasília erguia palácios, avenidas e ministérios, Bráulio ajudava a sustentar a parte mais importante daquela construção: as pessoas. Porque cidades não adoecem, quem adoece são aqueles que as constroem.
O ano de 1960 trouxe a apoteose daquele sonho. No dia 21 de abril, com o coração pulando no peito, Bráulio assistiu à inauguração de Brasília ao lado de sua família e de suas queridas tias. Viram as luzes acenderem na imensidão e sentiram o orgulho profundo de fazer parte do nascimento da nova capital. Nas rodas de conversa da época, a figura lendária de Bernardo Sayão e sua coragem pelos caminhos do cerrado eram lembradas com reverência e saudade.
A fé e a solidariedade sempre guiaram os passos de Bráulio. Atuando como vicentino na Igreja São João Bosco, ele estreitou laços de profunda amizade com o inesquecível padre Roque Valiati Baptista, dividindo a missão de amparar os mais necessitados da comunidade.
Quando a Cidade Livre começou a se transformar de acampamento provisório na definitiva cidade do Núcleo Bandeirante, chegou o momento de erguer uma nova estrutura para a farmácia. E no lugar onde o concreto substituiu a madeira, foi a força da amizade que fez a diferença: cercado e apoiado por amigos sinceros que conquistara ao longo dos anos, Bráulio construiu a nova sede da Farmácia Santo Antônio. Cada pessoa colaborava com generosidade; um ajudava com o trabalho, outro conseguia material, alguns com orientações.
Ao lado de sua amada Maria Felícia Martins Bazilio, Bráulio construiu não apenas um legado profissional impecável, mas o seu maior tesouro; uma família abençoada com cinco filhos, três homens e duas mulheres.
Bráulio continuou atrás do balcão, atendendo pessoas, escutando preocupações e oferecendo ajuda. O Núcleo Bandeirante cresceu ao redor dele, as ruas mudaram, as casas se tornaram mais firmes, o comércio se desenvolveu, novas gerações nasceram, mas algumas pessoas ainda entravam na farmácia e se lembravam do tempo da poeira, dos barracos e das dificuldades. Foi ali que Bráulio aprendeu a transformar o ofício recebido do pai em serviço à comunidade, foi ali que construiu não somente sua vida profissional, mas também sua família.
Hoje, ao olhar para a história gravada no asfalto e nas calçadas do Núcleo Bandeirante, seu Bráulio sabe que seu coração pertence àquele chão. Entre todas as maravilhas desenhadas no Planalto Central, o seu lugar preferido em Brasília continua sendo a sua eterna Cidade Livre, o pedaço de terra abençoado onde plantou a coragem, colheu o amor e ergueu, com fé e trabalho, a vida inteira.
Brasília ficou conhecida por seus monumentos de concreto, mas a cidade também foi construída por balcões de madeira, pequenos comércios e mãos estendidas. Foi construída por pessoas como Bráulio Roberto Bazilio. O homem que abriu uma farmácia para realizar um sonho e acabou ajudando a cuidar de uma cidade inteira.
Santo Antônio.
Uma história de cuidado desde maio de 1959.
